quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A Caldeirada



A caldeirada da Isabel foi a melhor que comi até hoje, carregada de amizade, carinho e sinceridade. Por isso, pelo peixe e muitos outros condimentos, fez com que não me esquecesse dos amigos que vou encontrando na minha viagem e que me acompanham onde quer que eu vá.

Não estava à espera desta prenda, basta-me a vossa companhia todos os dias mas alegro-me muito por não vos ter deixado indiferentes...

"Não podes desistir" disse-me a Isabel num tom de ordem. Fez-me pensar que tudo o que iniciamos não tem valor só para nós, excede o problema, envolve tudo e todos à nossa volta, e por isso Isabel (não só pela caldeirada e o champagne) não desistirei nunca.

Por mim, por vocês, porque viveram comigo a ansiedade, as alegrias e as tristezas. Não há nada que impeça a minha viagem.

Diz a raposa do principezinho: "Ai que me vou pôr a chorar", mas é de saudades vossas que me receberam de braços abertos, partiharam, envolveram-se, deram-me alento, acreditaram em mim...

Mas sobretudo estiveram sempre comigo quando precisei e isso nunca esquecerei.

Como disseste Isabel, é um até já, nem sequer é um até amanhã...

sábado, 25 de outubro de 2008

Para o Meu Amigo João

(Vou sentir muito a tua falta...)


Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços, E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos.


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio


sábado, 18 de outubro de 2008

Vaya Con Dios - Don't break my heart

Sou forte e corajosa mas às vezes também perco a fé...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Comício do Porto (29.11.1974)- PPD

Ainda não tinha nascido mas esta também tem sido uma das casas onde cresci.

Não sou velha mas revejo-me apenas no velhinho PPD...

Nesta altura o PPD falava das relações dos trabalhadores, sem medo de ser apelidado de comunista.

Não me colo a nomes mas também não tenho medo que eles se colem a mim, foi nesta casa que aprendi a lidar com toda a gente.

Venham de lá os bandalhos porque enquanto a minha geração acreditar ninguém terá medo de vocês...

sábado, 11 de outubro de 2008

Os Réus São os Maus?

michael bublé michael bublé - home Music Video on IMEEM Video


Esta é para todos os que estiveram lá. Para todos os que, como eu, se sentem em casa quando estamos juntos. Para nós que a construímos...

Este foi o primeiro dia de muitos que, acredito, mudará para sempre as nossas vidas...

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Não era nada comigo...



Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão. E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.


Maiakovski
Poeta russo, após a revolução de Lenin… escreveu, ainda no início do século XX.


Primeiro levaram os negros mas não me importei com isso, eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários mas não me importei com isso, eu também não era operário. Depois prenderam os miserávei mas não me importei com isso porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados mas como tenho emprego também não me importei...

Agora levam-me a mim mas já é tarde.Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht (1898-1956)


Um dia vieram e levaram o meu vizinho que era judeu.Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram o meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei .


No terceiro dia vieram e levaram o meu vizinho católico.Como não sou católico, não me incomodei.


No quarto dia, vieram e levaram-me. Já não havia mais ninguém para reclamar...


Martin Niemöller, 1933 - símbolo da resistência aos nazistas.


Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima, depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles; fecharam ruas, onde não moro; fecharam então o portão da favela, que não habito.


Em seguida arrastaram até a morte uma criança, que não era meu filho...

Cláudio Humberto, em 09 FEV 2007


Em Portugal, o Governo atacou os farmacêuticos, eu não disse nada porque não sou farmacêutico. A seguir atacaram os magistrados, também nada disse porque não sou magistrado.


Depois foram os enfermeiros. Também nada disso é comigo. A seguir congelaram as carreiras dos funcionários públicos, quero lá saber eu nem sou manga de alpaca.


Maltrataram os polícias, os militares, os professores... os padres também não escaparam. Aumentaram os impostos, aumentaram a idade da reforma, a insegurança nas ruas, nas escolas e até nas nossas casas.


Ah mas criaram “as novas oportunidades” e “o divórcio”.


Hoje batem-me à porta com a Lei da mobilidade e atiram-me para o desemprego. Já gritei e ninguém me ouve, até parece que a coisa só me afecta a mim.


Um Português em 2008


Incrível é que, após mais de cem anos, ainda nos encontremos tão desamparados, inertes, e submetidos aos caprichos da ruína moral do poder dos governantes que vampirizam o erário, aniquilam as instituições, e deixam aos cidadãos os ossos roídos e o direito ao silêncio : porque a palavra, há muito que se tornou inútil…



sábado, 20 de setembro de 2008

Inocência



Durante todo o verão vi grupos de crianças com chapéus coloridos, de mão dada, ou em fila, a caminho da praia.

Levavam no olhar a mesma felicidade que eu me lembro, do tempo em que a minha maior preocupação era não saber fazer castelos na areia...

Ao vê-los passar fico presa nesse momento, esse confortável momento onde tudo eram chapéus coloridos, baldes e pás.

Hoje, para a maioria das pessoas, isso já não existe mas eu continuo a ser criança, na minha vida há sempre espaço para baldes e pás.

Continuo a não saber fazer castelos na areia mas hoje já não me aflijo, o meu tio ensinou-me uma maneira de os fazer, já devia ter uns 14 anos quando percebi que era tão fácil...

Ensinou-me, ele e toda a minha família, a não deixar que deitem abaixo os meus castelos de areia, é por isso que hoje menino nenhum põe o pé em cima dos meus castelos.

Pode até pôr...Não sem antes passar por cima de mim...Posso até cair mas nunca fico no chão!